Corpo e Mente
A Escola Ba Zhai (8 Palácios) e os Desafios Emocionais

A Escola Ba Zhai (8 Palácios) e os Desafios Emocionais



No artigo anterior (setembro), foram apresentadas as diferenças entre as duas escolas comumente mais conhecidas do Feng Shui Clássico, as Estrelas Voadoras e os 8 Palácios. Nesse mês, serão abordadas as dinâmicas desse segundo sistema, que merece uma atenção especial pelas análises em que esta se propõe: os aspectos psicoemocionais que a construção estimula nos moradores ou usuários. A isso refiro-me a dois tópicos em específico: as tendências de reação emocional construtivas ou destrutivas estimuladas pela edificação (mas já existente no homem) e padrões de comportamento e visão de mundo observável pelo reforço dos hábitos no cotidiano.

O Ba Zhai (Pa Chai na terminologia Wade-Giles) é conhecida pela grande quantidade de escolas e metodologias, sendo que cada uma utiliza abordagens específicas de montagem e interpretação. Algumas visões, compiladas a partir do século XVIII e ainda em uso:

• Zhou Shu Men Ba Zhai (Método dos Portões de Zhou);
• Yang Zhai San Yao (Os Três Requerimentos para as Casas dos Vivos);
• Ba Zhai Ming Jing (O Espelho Reluzente das 8 Casas);
• Qi Kou Ba Zhai (8 Palácios pela Boca do Qi);
• Fei Xing Ba Zhai (Estrelas Voadoras das 8 Casas);
• Ren Qi Ba Zhai (8 Palácios pelo Potencial Humano);
• Entre outras;

Pelos exemplos acima, já se prevê que um dos pontos mais complexos do Ba Zhai se refere aos seus muitos sistemas analíticos (cada um diferindo em contexto e resultado), o que resulta na inevitável pergunta: Qual visão é a correta, melhor ou autêntica? Após muitas pesquisas teóricas e empíricas, observo que mesmo sendo até óbvio tal questionamento, este deveria ser evitado, pois não se trata de qual é o certo, mas sim qual seria o mais eficiente em determinada situação. Observação essa que insere uma problemática que muitos estudantes, discípulos de mestres e entusiastas não costumam realizar sempre: a de que seria importante, em tese, ao mesmo conhecer as diferenças e similaridades entre um sistema e outro, e não apenas aceitar uma interpretação fixa apenas porque se aprendeu assim com um professor.

Da You Nian Ge / A Canção dos Grandes Ciclos Anuais

(Imagem 1)

Originalmente, as 8 “Energias” do Ba Zhai eram denominadas de 8 Estrelas, como referência às estrelas da Ursa Maior. Para haver uma distinção terminológica dos termos utilizados no Fei Xing (vide introdução ao tema no artigo anterior), geralmente opto por denominá-los como “Portentos” (no sentido de fenômeno emocional) ou “Presságios” (no sentido de tendência comportamental, não como predição ou profecia). Até onde se conhece, nas primeiras tentativas de transformar essa “canção” numa teoria ambiental, o conceito era baseado em 8 estruturas fixas de análise, sendo 4 desfavoráveis, 3 favoráveis e uma indiferente, sendo que, com a evolução das escolas, a tendência neutra acabou ganhando um status benéfico.

A infraestrutura do pensamento Da You Nian Ge era fundamentada numa visão sobre o ponto de vista dos 8 Trigramas e suas relações (e não na prioridade aos 9 Números do Luo Shu, como ocorre com as Estrelas Voadoras), tal qual toda a linha de pensamento da tradição San-He em geral. É exatamente por esse motivo que, mesmo havendo algumas escolas de interpretação dos 3 Ciclos no Ba Zhai, a sua “essência” (no caso, pelo pergaminho base) tende a ser poética, se voltando mais a uma perspectiva das 3 Harmonias.
 
Pontos de referência e Mutação dos Trigramas

Os 8 Portentos são sempre resultantes da comparação entre dois trigramas, sendo um de ordem referencial (fixo), que se relaciona com as 8 demais estruturas do Hou Tian Ba Gua (Sequência do Céu Posterior), distribuídas na construção através do norte magnético. A questão que causou (ainda causa) tamanha confusão entre os praticantes é que na Canção dos Grandes Ciclos Anuais, basicamente uma tabela de conversão, não se define a localização (no ambiente) desse referencial fixo, o que trouxe diversas abordagens de acordo com a interpretação de cada mestre ou clássico.

Como introdução, vide alguns referenciais possíveis, a partir da estrutura das Yaos (linhas) dos trigramas, enquanto visão San Cai (3 Princípios e pelo comportamento humano). Esse referencial tende a ser a base para o surgimento do que, posteriormente, se define como Presságios dos 8 Palácios.

Os 8 Portentos do Ba Zhai

 

Triagrama (Linhas)

San Cai

Comportamento Humano

Características Gerais

Tian / Céu

Os Pensamentos

Reflexões, aspectos cognitivos, paradigmas ou ampliações de sensibilidade.

Ren / Homem

As Emoções

Respostas emocionais (responsivas ou reativas), aspectos sentimentais, necessidades pessoais.

Di / Terra

O Físico

Pragmatismos, aspectos materiais, ponto de vista prático.

 



O estudo dos 8 Presságios é, mesmo que não aparente, algo complexo e dinâmico, que vem se modificando e ganhando significados cada vez mais profundos e instigantes nos Novos Tempos. Como referencial introdutório, podemos nos referir aos Portentos como:

• Fu Wei (Observando o Trono): Estimula calma, tranquilidade, ritmo, reflexão baseada na vivência / experiência. Harmonia que mantém a serenidade e sensibilidade ampliadas, sobretudo em tempos de crise e instabilidade. Como contraponto, pode trazer morosidade, lentidão, passividade, letargia. No Ba Zhai, o Fu Wei se refere também ao conceito de Zha Gua (Trigrama da construção);

• Sheng Qi (Energia Criativa): Estimula criatividade, movimento, dinamismo, mudança de perspectiva, esperança e renovação. Pode instigar ansiedade, stress, falta de comprometimento, necessidade de liberdade a qualquer custo;

• Yan Nian (Longevidade): Estimula o diálogo, cuidado, diplomacia, empatia, os bons relacionamentos, capacidade de adaptação, abertura para o novo. Em aspectos desafiadores, pode representar excesso de zelo, indecisão, adequação “silenciosa”, omissão, sobrevivência ou manutenção da ordem pela manipulação cortês;

• Tian Yi (Medicina Celestial): Estimula estabilidade, coesão, integridade, sensação de segurança, vitalidade física, equilíbrio emocional. Nos Novos Tempos, pode trazer foco excessivo no corpo, na validação estética como justificativa à saúde, crença no vigor pessoal que dificulta o estabelecimento de limites físicos claros e equilibrados;

• Huo Hai (Contratempos): Instiga desatenção, os atrasos, dessincronias, inconsistências, os acidentes ou inconvenientes por distração, problemas gerais por falta de cuidado, zelo ou crença em garantias estáticas. Tópico para reflexão: “O quanto para mim, a sensação de segurança é sinônima apenas de ganho financeiro, posses, emprego estável e status? Se caso não tenha mais controle de alguma dessas condições (ou de todas elas), onde depositarei o meu foco por busca de estabilidade pessoal?”

• Wu Gui (5 Fantasmas): Instiga nervosismo, irritação, catarses / explosões emocionais, estímulos agressivos (baseados no uso da força), muitas vezes induzidos por obsessão espiritual de cunho complexo, o que estimula o vigor da discussão e brigas interpessoais. Tópico para reflexão: “O quanto o sentido de poder é importante para mim (seja de cunho material, emocional ou até espiritual), ao ponto que a imposição pela argumentação ou manipulação energética é o meio mais utilizado para se ganhar espaço?”

• Liu Sha (6 Demônios): Instiga mentiras, inveja, decisões inconsequentes, falta de coerência ético-moral, perda de referencial de si e do próximo, distanciamento emocional excessivo, manipulação estratégica, verborragia. Tópico para reflexão: “O quanto uso as pressões externas e a tragédia da vida como justificativa para se levar alguma vantagem antiética (mesmo ínfima), seja monetária, territorial ou afetiva? Em que ponto acredito que a esperteza é realmente a alma do negócio, ou que seria melhor mesmo jogar tudo para o alto e viver a vida sem pensar em mais nada?”

• Jue Ming (Destino Cruel): Instiga contenção emocional, fechamento, desistência das metas pessoais, depressão, amargor interno. Tópico para reflexão: “O quanto utilizo o isolamento pessoal como subterfúgio de defesa entre os desafios pessoais e as pressões externas? O quanto acredito realmente que o mundo é mal e injusto, sendo eu a vítima injusta desse suposto padrão caótico negativo?”

(Imagem 2)

Assim, cada uma das características acima tende a ser analisada na edificação a partir de ressonâncias que envolvem setores, direções e compatibilidades pessoais, sendo que cada escola tem a sua particularidade. Entretanto, um aspecto costuma ser generalizado: é comum se utilizar uma escala de valores para tentar se ordenar os Portentos Estimulantes na seguinte ordem qualitativa (do suposto melhor para o menos eficiente): Sheng Qi > Tian Yi > Yan Nian > Fu Wei, e no caso dos Portentos Desafiadores (do hipotético pior para o menos ruim): Jue Ming > Liu Sha > Wu Gui > Huo Hai. Entretanto, segundo o autor, a questão não está em exaltar quais deles possuem maior capacidade de realização no mundo ou, no aspecto desafiador, saber quem são os seus piores “inimigos” (e que terão que ser contidos a qualquer custo), mas sim proporcionar uma visão mais neutra e equidistante, onde a definição de qualificação e uso se dará pela necessidade geral e condição do momento. A escolha por equivalência abrange estabelecer também uma visão distinta à “irmandade dos bons e maus”, apresentando aspectos de questionamento menos maniqueístas, em que não haverá respostas tão óbvias do que é o certo absoluto ou de como algo deveria ser enquanto dogma. Se isso aumenta a complexidade do sistema, também pode oferecer reflexões um pouco mais consistentes às questões estruturais do novo homem, além da indicação simplificada “de quem é a culpa” ou que “cura” coloco no ambiente para resolver o problema.

Assim, dá-se a impressão que o Ba Zhai tem e terá uma função muito importante nessa Nova Realidade, como um instrumento que pode proporcionar autoconhecimento e até estímulos de diálogo interpessoal, através do espelho de nós mesmos na construção. Mas para isso, talvez seja necessária uma outra visão de mundo, mais alinhado à proposta “reflita sobre a mudança e tente olhar por um novo ângulo; sinta o que muda na sua vida” do que do jargão “faça a mudança que isso melhorará a sua vida”. Ou seja, de uma certeza passa-se a uma possibilidade de releitura e escolha, sem estar atrelado a um fim ideal ou somente a um resultado do que se almeja. Talvez isso requeira mais do que uma simples abertura (diria até coragem), pois se sugere mais um compartilhar de ideias em aberto e em transformação, com o Feng Shui, se tornando não mais uma virtude de solução, mas um canal de sensibilização.



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Autoria

Texto de Marcos Murakami - Diretor do Instituto Eternal Qi - Centro de Ensino e Pesquisa - Ministrante de cursos de Feng Shui - (11) 2959-2668 / 98148-4816 - falecom@institutoeq.com.br - Outubro 2016

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