Corpo e Mente
2017 – O Ano do Galo de Fogo Yin

2017 – O Ano do Galo de Fogo Yin

 

 

            Uma das questões comuns no início de cada ano é saber como será o novo ciclo, pelos mais variados estudos esotéricos. Nas astrologias, sobretudo a chinesa, esse jargão ajuda no “boom” de venda de revistas e livros que preveem os mais variados acontecimentos e indicam caminhos de benefício pessoal, verdadeiros estratagemas que te dizem como você deveria se comportar para estimular um bom Sheng Qi. Outros materiais instigam até mesmo o uso de amuletos protetores, incensos e até supostos banhos sagrados (numa curiosa miscelânea sincrética), sobre o pretexto de verdadeiro ritual chinês para prosperidade e boa aventurança. Mesmo com tamanho burburinho, provavelmente a pergunta mais comum (“o que devo esperar do ano”) talvez seja a menos relevante, até mesmo para os curiosos empolgados que aceitariam qualquer resposta genérica de cunho místico como tentativa de alívio pessoal, sob o subterfúgio temático de profunda filosofia oriental.

            Mas então, nada é válido? A resposta dependerá, obviamente, das expectativas do leitor e da capacidade de visão analítica deste, de aceitar ou não quaisquer informações sem o mínimo critério ou bom senso. Sem dúvida, na metafísica chinesa, há referenciais de aprendizado muito profundos e até surpreendentes; entretanto, na opinião do autor, a maioria destes materiais que chega ao grande público é imprecisa, deveras distorcida, sendo que, atualmente, pouco apresenta alguma referência real de sabedoria autêntica, já que na rasa reinvenção comumente se nota uma distorção pragmático-utilitarista quase que assustadora.

            Assim, mais do que realizar uma predição do ano em questão e apresentar fórmulas de bem-estar, tentar-se-á estabelecer minimamente as bases do que talvez seja um pouco do que prefiro chamar de Cosmologia Chinesa, e a suas possíveis maneiras de reinterpretação nos Novos Tempos. Informações complementares poderão ser encontradas no artigo de junho de 2016 (Cosmologia Chinesa, Ferramentas de Estudo e Reflexão de Si).

 

A Questão dos Calendários e os Tipos de Abordagem

 

            Na China, existem duas maneiras tradicionais de se observar o ano energético:

  • Calendário Lunar: sistema ancestral, é muito utilizado para comemorações populares. Baseia-se na contagem de dias entre duas luas novas. Por esse sistema, o início do ano pode se dar entre janeiro e março, exatamente na segunda lua após o solstício de inverno. Muito utilizado nos sistemas cosmológicos simplificados, como o zodíaco dos animais (que utiliza somente o ano) e a técnica Yue Shu Ming Li (Numerologia Chinesa), bem como no complexo Zi Wei Dou Shu (Astrologia Polar);
  • Calendário Solar: desenvolvido por monges taoístas que possuíam grande conhecimento astronômico. Relaciona-se ao momento exato em que a energia Yin da Terra se transforma em Yang, ou seja, entre o solstício de inverno e o equinócio de primavera. É considerado muito mais preciso do que o calendário lunar, sendo utilizado nos meios de estudo da metafísica chinesa que requerem uma melhor acuidade, como no Jiu Gong Ming Li (9 Constelações) e no Zi Ping Ba Zi (4 Pilares do Destino). Por esse sistema, o início do ano sempre ocorre nos dias 3 ou 4 de fevereiro;

 

            No ano de 2017, o ano novo chinês, considerando-se a longitude 45º (Brasil), será no dia 27 de janeiro pelo calendário lunar e no dia 03 de fevereiro pelo calendário solar. Mesmo sendo muitas vezes uma afinidade do estudioso considerar uma ou outra data, considero particularmente a segunda opção (visão solar) a mais coerente para a maioria dos estudos técnicos, tanto de Feng Shui Tradicional quanto de Cosmologia Chinesa.

            Conforme mostrado em artigos anteriores, o tempo chinês é considerado de maneira cíclica, em padrões de constatação pontual (hora, dia, mês e ano) e global (ciclos de 9, 10, 12, 20, 60 e 180 anos, por exemplo, dependendo da metodologia utilizada). Existem dois tipos de linguagem utilizadas, sendo a primeira numerológica (baseada no Luo Shu – Quadrado Mágico), em que, no nosso estudo particular, inserimo-nos num momento de 20 anos (2004-2024) regido pelas características do que se chama de Estrela 8 e especificamente, num ano que será supostamente influenciado pelo número 1.

            Já a segunda abordagem se refere à dinâmica do Wu Xing (5 Transformações do Qi ou 5 Elementos) sob a ótica das polaridades do Tai Ji Zun, o que possibilitaria dez códigos interpretativos (Madeira Yang e Yin, Fogo Yang e Yin, Terra Yang e Yin, Metal Yang e Yin, e Água Yang e Yin), podendo ser resumidas figurativamente, conforme a tabela.

 

Wu Xing

Madeira

Fogo

Terra

Metal (Ouro)

Água

Palavras chave

Movimento

Ação

Expressão

Segurança

Manifestação

Organização

Comunicação

Profundidade

Características

Yin-Yang

Yang

Criatividade

Renovação

Imagem

Vitalidade

Infraestrutura Paradigmas

Ação planejada

Interpessoal

Imagem Poética

Uma Árvore Frondosa

O Sol

Uma Montanha

Uma Espada

O Rio

Yin

Cura

Delicadeza

Insight

Intuição

Base Interna

Manutenção emocional

Estratégia

Sedução

Intrapessoal

Sensibilidade

Inspiração

Imagem Poética

A Flor

A Erva

A Vela

O Vaso

As Joias

As Moedas

A Chuva

 

            Tais estruturas essenciais constroem o que se chama, arquetipicamente, de:

  • Tronco Celeste (Tempo no Céu): baseia-se nos 10 padrões puros citados;
  • Ramo Terrestre (Tempo na Terra): baseia-se também na infraestrutura do Wu Xing, mas considera uma distribuição complexa dos padrões acima em 12 aspectos de influência, em que há uma dinâmica na composição dos elementos. Para facilitar o entendimento (já que os agricultores e o povo simples da época também utilizavam esse sistema), cada um desses perfis complexos recebeu uma associação figurativa tardia com animais, na ordem: Rato, Búfalo, Tigre, Coelho, Dragão, Serpente, Cavalo, Cabra, Macaco, Galo, Cachorro e Javali;

 

Troncos Celestes

Ramos Terrestres

Elementos Intrínsecos

1. Madeira Yang (Ma+)

I. Rato

Água Yin

2. Madeira Yin (Ma-)

II. Búfalo

Terra Yin / Água Yin / Metal Yin

3. Fogo Yang (F+)

III. Tigre

Madeira Yang / Fogo Yang / Terra Yang

4. Fogo Yin (F-)

IV. Coelho

Madeira Yin

5. Terra Yang (T+)

V. Dragão

Terra Yang / Madeira Yin / Água Yin

6. Terra Yin (T-)

VI. Serpente

Fogo Yang / Metal Yang / Terra Yang

7. Metal Yang (Me+)

VII. Cavalo

Fogo Yin / Terra Yin

8. Metal Yin (Me-)

VIII. Cabra

Terra Yin / Fogo Yin / Madeira Yin

9. Água Yang (A+)

IX. Macaco

Metal Yang / Água Yang / Terra Yang

10. Água (A-)

X. Galo

Metal Yin

 

XI. Cachorro

Terra Yang / Metal Yin / Fogo Yin

 

XII. Javali

Água Yang / Madeira Yang

 

            Perceba então de onde nasceu uma das maiores distorções interpretativas dos estudos astrológicos chineses: com o tempo, e sobretudo ao chegar em terra ocidentais, o que era apenas um facilitador interpretativo se tornou um estranho estudo zoomórfico, com casos em que o significado original dos elementos foi modificado pelo “achismo” do que o respectivo animal representante poderia significar. Desta feita, um ano de Cachorro, por exemplo, não será bom ou inspirador por lembrar o seu querido animal de estimação, mas pelo sutil e difícil estudo dos elementos que o compõe (Terra Yang, Metal Yang e Fogo Yin).

            A união entre Tronco (em número de 10) e Ramo (em 12 possibilidades) resulta em 60 Arranjos “Céu+Terra” denominados de Binômios, sendo esta última combinação um pré-requisito mínimo para se iniciar qualquer análise (perceba que muitos livros sobre tema apenas focam nas explicações do zodíaco chinês, o que é de uma generalidade perigosa). Assim, com tal configuração, cada animal (que já é constituído por determinados elementos intrínsecos) recebe também uma “regência celestial”, podendo, portanto, pode ser de cinco tipos: Madeira Yang, Fogo Yang, Terra Yang, Metal Yang ou Água Yang, dependo do Tronco associado.

 

Processo Analítico e Desmistificação

 

            O ano passado foi regido pela Estrela 2, e pelo binômio Macaco de Fogo Yang. Como esse animal reflete os elementos Metal Yang, Água Yang e Terra Yang, tivemos, resumidamente, os seguintes padrões:

 

Binômio - 2016

Significados simbólicos dos elementos

Significados simbólicos da Estrela 2

Fogo Yang

Aparência, exaltação, vigor

Aspectos explícitos

Aspectos implícitos

Macaco

------------------

Saúde e doença, apegos emocionais, medos, reserva, identidade familiar

Engajamento circunstancial, exaltação e stress, dificuldade de lidar com o “peso” interno e do mundo

Metal Yang

Controle, comando, conquista

Água Yang

Expressão, comunicação

Terra Yang

Segurança concreta, pragmatismo

 

            Talvez muitas das ocorrências globais, como o aumento da polarização como resposta ao niilismo existencial, as revoltas e movimentos sócio-políticos, o aumento das somatizações, doenças e medos particulares poderiam ser associados nesse viés interpretativo. Até mesmo o surpreendente desfecho da eleição americana poderia ser referenciado pela presença do F+ em Tronco (uma figura icônica) em relação com os elementos do Ramo. Parece-me interessante analisar tal disposição da seguinte maneira: se há alguém ou algo que se encaixe no arquétipo do momento (quase que atendendo o sentido de Zeitgeist), o espirito intrínseco do que se reflete no modus operandi do homem se manifesta na ação e pode ser vista pelo código em questão.

            Relembrando que o novo ano terá vigência a partir do dia 03 de fevereiro, a influência será a da Estrela 1 e do binômio Galo de Fogo Yin. Como esse animal tem apenas o elemento Metal Yin, teríamos a seguinte simbologia:

 

Binômio - 2017

Significados simbólicos dos elementos

Significados simbólicos da Estrela 1

Fogo Yin

Vitalidade, fé, sentido de vida, motivação, alegria

Aspectos explícitos

Aspectos implícitos

Galo

------------------

Sensibilidade espiritual, profundidade e desafios emocionais, comunicação intra e interpessoal

Saúde e doença, apegos emocionais, medos, reserva, identidade familiar

Metal Yin

Valor e prioridades, autoanálise e perspectiva pessoal

 

            Nesse sentido, o que poderia significar tais informações? Um desafio a respeito do sentido interno (busca de vitalidade pessoal, necessidade de motivação como resposta ao cansaço e torpor cotidianos)? Uma reavaliação de prioridades, o choque entre funcionamento prático e valor de mercado com necessidades existenciais mais dissonantes com o senso comum requerido? Um aumento da sensibilidade inter e intrapessoal, flutuações emocionais, um acesso mais direto aos apegos vinculados ao padrão de memória ancestral? É provável que muitos aspectos pontuais se alinhem nos questionamentos acima, mas não ousaria afirmar, nesse momento, que eventos (sejam políticos, sociais ou naturais) ocorrerão, ou até mesmo quais movimentos estratégicos precisaremos realizar para sairmos ileso dos problemas e otimizado em virtudes mundanas. O motivo para tal afirmação se baseia no fundamento da construção da realidade física como conhecemos: a noção de Escolha como fator atrator dos eventos. Em suma, especular sobre o que ocorrerá é moldar o novo pela perspectiva do antigo, pelo reforço do hábito, ou seja, é construir apenas pela repetição do que se sabe, sem dar espaço à renovação. De antemão, necessita-se relembrar que nada, além de você mesmo, na relação ética e empírica com o mundo, deveria dizer como agir ou ser. Partindo de tal premissa, também as simbologias estudadas não revelam necessariamente uma ordem cósmica maior, mas apenas, e para os que creem nisso e tem afinidade nessa linguagem, um espelho sincrônico sobre as tendências de comportamento mecânicas de nós mesmo que fazem as coisas serem o que são, no pior e melhor dos casos. Assim, um olhar dinâmico, principalmente nos Novos Tempos, seria refletir também sobre as possibilidades de reinterpretações dos códigos, que envolveriam, sobretudo, reavaliações sobre si mesmo. Mais do que “o que devo esperar do ano”, talvez nessa nova realidade, seja requerido algo mais coerente, tal como “o que farei de mim mesmo, nesse ano, o que mudarei de fato”, já que os elementos em questão, se realmente existem, estão prioritariamente em nós, interpretadores deveras circunstanciais das ocorrências. O que escolheremos fazer dos nossos mundos, dessa vez, então?

 


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Autoria

Texto e imagem de Marcos Murakami - Diretor do Instituto Eternal Qi - Centro de Ensino e Pesquisa - Ministrante de cursos de Feng Shui - (11) 2959-2668 / 98148-4816 - falecom@institutoeq.com.br

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