Corpo e Mente
Feng Shui Moderno

Feng Shui Moderno



Escola Californiana, Black Hat Sect ou do Budismo Tântrico do Chapéu Preto




Muito se fala ou se escreve sobre o Chapéu Preto. Tornou-se a mais difundida em todo o mundo a virada do século XXI, devido, em primeira instância, à facilidade de entendimento e atuação. Designa os famosos cantos da casa e incorporam-se rituais e propostas magísticas nos processos de consagração do espaço. Mantém os conhecimentos da Escola da Forma, mas ignora o uso da bússola para as análises. É a mais intuitiva das escolas, trabalhando principalmente com o universo simbólico do morador e a força do pensamento como mola propulsora para se atingir os objetivos pragmático-emocionais.


Por um lado, muitos consultores formados pela Tradição Clássica Chinesa (em especial a San-Yuan / 3 Ciclos) ignoram, negam ou não aceitam o Black Hat como um ramo do Feng Shui. Em contrapartida, os iniciados na Seita do Mestre Lin Yun simplesmente o consideram um Boddhisatva, na mesma escala do conhecido Dalai Lama. Por conseguinte, antes de iniciarmos a nossa indagação, é sábio entendermos as origens das dicotomias entre os chamados enfoques ancestrais e contemporâneos, como também a história das bases dessa escola tão divergente, mas também tão representativa.

A Viagem do Monge Ancestral

Nos tempos antigos, não existia uma separação clara entre as divisas do que hoje denominamos de Tibet, China e Índia, sendo muito difícil definir com precisão qual a origem da Seita do Chapéu Preto. Já a lenda diz que Padma Sambava, um mestre budista indiano, ao chegar à região do Tibet-China, deparou-se com uma tradição xamânica de cunho magística chamada Bön, e da fusão entre esse culto à Natureza e o budismo tibetano-indiano (provavelmente na tradição Mahayana) surgiram as bases do Black Sect. Nesse período remoto, a escolástica budista se separou em diversas seitas (distinguidas popularmente pelo uso dos Chapéus Amarelo, Vermelho, Preto etc., cada um com o seu próprio “lama principal” – e, supostamente, antes mesmo das designações conhecidas mahayana e theravada), que lutavam pela hegemonia político-religiosa na região (a China era considerada a milícia da época, mas a concentração do poder encontrava-se no Tibet).


É interessante observar que, se por um lado, a maioria das tradições tibetanas procurava manter puras as conceituações doutrinárias, Por outro, a seita negra já nascera eclética (a posterior fusão com o movimento sociocultural confucionista e taoista na China foi um exemplo disso). E foi exatamente esse enfoque que, aliado à silenciosa mística que envolvia o discipulado, influiu para que pouco a pouco essa escola fosse sinônima de inacessibilidade, e por vezes, de culto demoníaco, aos olhos do povo comum.

Origens e idealizador


Nas primeiras décadas do século XX, Lin Yun, começa a frequentar um monastério budista. Além dos conhecimentos taoistas e confucionistas já vivenciados, ele tem contato com o universo ritualístico tibetano; os mestres reconhecem-no como a reencarnação de uma das qualidades de Buda, e possivelmente revelam a futura missão do garoto, como um importante canal para o renascimento de uma antiga tradição tântrica.


Já maduro, Lin Yun sai da sua terra natal, fixando sua residência nos Estados Unidos e reformula as bases da Seita Negra, relacionando-os com os antigos conceitos chineses de harmonização de espaços (Kan Yu), mas com um enfoque totalmente novo, não considerando a tradicionalíssima Luo Pan e incluindo técnicas de psicologia analítica, simbolismo oriental, visualização criativa, cognição e magia. Estava aberta a primeira Escola de Feng Shui do Budismo Tântrico do Chapéu Preto, em 1986, na Califórnia.
Atualmente, variações baseadas no Black Hat, tais como:

• 8 Aspirações: utiliza os pontos cardeais para direcionar as qualidades do Ba Gua. Isto não está de acordo com as indicações originais do professor Lin Yun, pois este afirma que o Ba Gua deve ser sobreposto ao ambiente considerando que os trigramas Qian (Céu), Kan (Água) e Gen (Montanha) deveriam ficar sempre voltados para a direção da parede onde se encontra a porta de entrada da casa ou cômodo em análise. Embora use a bússola para sobrepor o Ba Gua aos ambientes, toda a análise segue as indicações do Chapéu Preto. Alguns iniciantes confundem-na, a princípio, com a Escola Ba Zhai (8 Palácios) ou mesmo como sendo uma autêntica técnica de bússola, o que, naturalmente, não é verdade. No início do século, inventou-se até uma vertente dessa técnica, mas que invertia os parâmetros do Ba Gua para o hemisfério Sul, o que confundia ainda mais os estudantes desavisados;


• Space Clearing (Limpeza Energética de Espaços): compreendem os mais diversos tipos de limpezas energéticas, rituais e consagrações mágicas, com o intuito de trazer saúde, prosperidade e proteção à vida pessoal e familiar. Possuem influências variadas, como o xamanismo, o budismo, o simbolismo chinês, entre outros. Utiliza, geralmente, a ordem figurada do Ba Gua do Chapéu Preto para organizar o espaço de atuação.

• Pirâmide: amplia os horizontes simbólicos da Escola Americana, colocando valores psicoemocionais no arquétipo “dos cantos”. Baseia-se na psicologia analítica e nos símbolos junguianos, com um forte apelo na programação neurolinguística;

• Observações sobre o Vastu Shastra / Vastu Vydia: mesmo não sendo uma variação do Chapéu Preto, cabe aqui uma menção, já que, por algum tempo, muito se relacionava o estudo ao pacote das harmonizações simbólicas. O Vastu é a versão indiana do Feng Shui (alguns pesquisadores sugerem o contrário, mas não parece haver evidência de que o Kan Yu tenha vindo da Índia ancestral). De qualquer forma, é conhecido por vários nomes, entre eles arquitetura védica, Sthapatya Ved, Vastu Vidya e Vastu Shastra. Assim como o Feng Shui, tem o objetivo de criar edificações em harmonia com a Natureza. Alia a numerologia e a astrologia em seus estudos. Compreendem-se as influências planetárias, conexões numerológicas e o simbolismo com o cosmo para que se obtenha a harmonia nas construções. Embora a teoria seja em muitos pontos oposta à técnica chinesa, o Vastu Shastra (erroneamente traduzido por alguns autores como “arquitetura espiritual”), é uma arte precisa. Consideram-se o campo eletromagnético terrestre, o direcionamento do imóvel, a inclinação do terreno, os tipos de solo, as polarizações internas, além do aspecto astrológico e sabedorias pertinentes à cultura védica. Essa associação com o mito religioso / arquetípico faz com que ele possua uma estrutura analítica e simbólica totalmente distinta das tradições chinesas ou tibetanas. Costuma também ser associado às técnicas de Space Clearing.

Feng Shui: incensos, visualização e limpeza energética?

(Vide imagem)

Antes de possíveis críticas, vamos analisar alguns pontos sobre o tema. O Chapéu Preto baseia-se num sincretismo religioso entre uma suposta ramificação do budismo (o tantrismo tibetano, rica em simbolismos e rituais de todos os tipos e finalidades) com uma seita magístico-xamânica de cunho secreto (em certo ponto, desconhecida até na sua terra natal). A relação com a sabedoria chinesa provavelmente ocorreu durante a evolução histórica dos impérios, já que o confucionismo, taoismo e posteriormente o budismo se revezavam de acordo com a dinastia vigente na China.


É necessário ainda, observarmos o contexto sociocultural americano na época de Thomas Lin Yun. Nos anos 70-80, o movimento corbusiano está em decadência e uma nova estética pós-moderna, estruturada no lema “novas maneiras de perceber o espaço” / “o kitsch revigorado”, ascendia no horizonte. As teorias jungianas são postas em prática, enquanto a semiologia é amplamente discutida nas universidades e Grindler/Bangler publicam as primeiras teorias sobre a Programação Neurolinguística.


O fascínio pelo orientalismo também estava em voga na época, principalmente na parcela da sociedade americana que buscava substituir a figura imperialista por um guru benevolente. Nesse quesito, Lin Yun foi realmente um mestre, pois conseguiu associar as necessidades explícitas no “American Zeit Geist” com a sua “formação mista” e melhor, sem ofender o culto à imagem, inerente ao ocidental. Visto por esse ângulo, a nova escola estabeleceu uma forma de linguagem figurativa, possibilitando, ao discípulo, organizar e separar o sagrado do profano por meio do ritual. A existência dessa alquimia era comprovada pela “matéria transformada”, ou seja, o talismã simbólico maior, o Ba Gua.


A crítica relevante seria em termos semânticos. Assim considerando, a Seita do Chapéu Preto nada teria em comum com o Feng Shui de fato. As únicas referências (simbólicas e culturais) seriam o Wu Xing (os chamados 5 Elementos), Hou Tian Ba Gua (Os 8 Trigramas na Sequência do Céu Posterior), alguns estudos pontuais da tradição San-He e sobre o fluxo do Qi. Os conceitos de “Vento e Água” se relacionam com a metafísica chinesa (destacando-se o taoismo), e não com uma visão budista alternativa. Há então, muito mais do que uma generalização da palavra Feng Shui: a veiculação equivocada desse termo criou uma pseudo-identidade religiosamente esotérica, por demais decorativa e muito longe de sua função real (talvez, por esse motivo, muitos estudiosos tradicionalistas, temendo as dinâmicas de solução rasas por vezes atreladas a essa visão sincrética, utilizam a designação Kan Yu como sinônimo ao Feng Shui ancestral, como tentativa de um resgate conceitual).


Concluindo, a importância da Escola Americana não se encontra na técnica do Feng Shui em si (aspecto que ela não enfoca de fato, no sentido intrínseco), mas na “psicologia-ambiental” proposta, na percepção da vida simbólica pela aplicação do sagrado na organização cotidiana, como se fez nos templos tibetanos in illo tempore. Isto posto, caberia aos pesquisadores tradicionalistas estudar um pouco mais esse modelo, antes de repugná-lo por imediato e, aos seguidores de Lin Yun, desenvolver uma perspectiva minimamente cética para enxergar, possivelmente, um efêmero Basquiat, em vez de um Picasso do Feng Shui. Bem, de qualquer maneira, até Jean-Michel teve sua beleza.

Divergente, por vezes, incongruente, mas, sem dúvida, uma singela poesia.


Thomas Lin Yun faleceu em 2010, aos 79 anos. Desde 2007, Khadro Crystal Chu é considerada a sua sucessora, com o título de Rinpoche.

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Autoria

Texto e imagens de Marcos Murakami - Diretor do Instituto Eternal Qi - Centro de Ensino e Pesquisa - Ministrante de cursos de Feng Shui - (11) 2959-2668 / 98148-4816 - falecom@institutoeq.com.br - Maio 2017

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