Corpo e Mente
As técnicas formais de Feng Shui tradicional

As técnicas formais de Feng Shui tradicional


Um olhar cognitivo sobre a construção e o entorno

No artigo anterior, introduziu-se a temática do Luan Tou Feng Shui, que poderia ser interpretada como Forma e Configuração, ou seja, como o estudo dos aspectos concretos da edificação (sobretudo o formato das construções e sua relação com o entorno) pode influenciar o cotidiano dos moradores, que acordo com suas necessidades e anseios. Nesse momento, como complemento ao escrito inicial, agregaremos as estruturas formais de terreno e o conceito mais relevante para os estudiosos do Kan Yu: a noção de Face Energética e Assentamento.

Formas de Terreno

Quando o estudo é a partir do ponto de vista da construção em si, é momento para se averiguar as formas de terreno. Naturalmente, um estudo pormenorizado é sempre indicado, já que com o crescimento descontrolado do meio urbano e com o “boom” imobiliário, por vezes não é possível seguir muitas das indicações de escala energética entre um lote e a edificação, pois o foco acaba ficando no aproveitamento máximo das áreas em questão, e geralmente de maneira em que se limita e muito o fluxo energético entre os espaços, não havendo mais muita possibilidade de se estimular o Ju Qi (Energia Dinâmica Estável), ponto de partida de um Feng Shui adequado.

A análise abaixo se refere a um estudo formal básico de lote (mais San-He), não se levando em conta alguns aspectos complexos, como relações de declive, questões geobiológicas, relações específicas com o entorno e tendências de Face Energética de um lado diferente da rua (a ser discutida posteriormente).

Vide imagem 1

Algumas análises:

• Lote 1: a forma quadrada indica estabilidade e equilíbrio. Nesse caso, se a construção puder ficar localizada no centro do lote, isso será favorável, pois o Qi será capaz de fluir livremente, sem qualquer obstrução, por todos os lados do imóvel;

• Lote 2: a casa está posicionada na parte dianteira do lote. O Qi entra e se acumula na parte dos fundos, denotando que a chegada energética pode ser captada rapidamente e na área oposta (fundos) existe uma capacidade de se guardar e dinamizar alguns potenciais de mudança e manutenção;

• Lote 3: a situação é oposta (dificuldade de reter dinheiro), principalmente se não houver possibilidade de se inserir paisagismo;

• Lote 4: o trapézio com a casa posicionada na parte mais estreita (simbolicamente associado à boca de uma garrafa obstruída), mostra que o Qi pode ter dificuldade para entrar e se acumular no fundo. Por conseguinte, a configuração não é favorável (sobretudo se muita sombra e umidade excessiva na parte de trás);

• Lote 5: fácil para o Qi entrar no lote, mas difícil permanecer (a imagem está relacionada com um funil). O Sheng Qi é incapaz de se acumular e se estabelecer, caso não seja possível criar um Ju Qi com água ou paisagismo;

• Lote 6: é tido como uma das formas mais desfavoráveis. São desorientadores, com poucas áreas para estabilizar adequadamente o Qi;



Definindo a Face Energética de uma Construção

Um universo muito complexo, com infinitas interpretações

Por convenção, a Face de um local (seja ele uma casa ou mesmo um apto) é lado mais energeticamente estimulado pelo potencial de entrada do Qi externo. Provavelmente essa frase denote uma grande obviedade, já que muitos poderão afirmar que isso significa dizer que tal condição se refere à frente de uma construção, certo? Talvez não.

Num universo tão pluralista como o Feng Shui Tradicional, com várias possibilidades de leitura e com tantas escolas, em muitos aspectos até mesmo fundamentais não se obtém um consenso entre os estudiosos e consultores. Isso se deve muito aos tipos de interpretações existentes dos clássicos ancestrais, que podem ser resumidos em duas de abordagens:

• Escola / Linha de “Taiwan”: são mestres e pesquisadores que em geral se fixam no fundamento dos clássicos, traduzindo / entendendo os textos e transpondo-os quase que integralmente aos tempos modernos. Muito voltada à continuidade da tradição;

• Escola / Linha de “Hong Kong”: linha voltada à adaptação dos tratados à contemporaneidade, por vezes revisando e modificando a aplicação dos ensinamentos antigos de acordo com a complexidade atual, abrindo novas possibilidades de interpretação e renovação das técnicas;
Assim, o tema Face Energética não foge às abordagens acima. Nos clássicos, é comum encontrar a associação desse lado principal da construção com o conceito de Qi Kou (Boca do Qi - onde se encontram o portão / porta principal de acesso à edificação). Seguindo ao pé da letra, os seguidores da visão taiwanesa procuram assim a porta externa mais utilizada na edificação como direção primária de entrada do fluxo energético no ambiente.

Por outro lado, os que se afinizam com a perspectiva de Hong Kong provavelmente entendem que no tipo de construção chinesa antiga descrita nos clássicos, as aberturas primordiais de energia (portões, pátios internos, portas e janelas) estavam voltadas quase sempre para o mesmo lado, o que definia sem problemas a tal Face Energética. Entretanto, como isso não é regra nas expressões arquitetônicas atuais (já que a porta principal pode estar até escondida numa das laterais, enquanto que a maioria das janelas e varandas poderá estar voltada para o fundo do terreno ou mesmo para um lado com uma vista excelente), essa linha de pesquisa procura não se restringir apenas ao conceito de Boca do Qi para a definição da Face, levando-se em conta também outros fatores Yang.

Os estudiosos reconhecem que identificar o lado mais energético de uma construção é o ponto crucial dentro de uma análise. Alguns mestres utilizam até alguns métodos intuitivos / sinestésicos para reconhecer exatamente esse lado mais energizado, mas no geral, existem algumas regras básicas que podem auxiliar a princípio. Note que para identificar a Face Energética, os tópicos baixo devem ser vistos de uma maneira conjunta e complementar, resultado das análises de movimento e também de qualidade do Qi. Fatores a averiguar:

• Topografia;
• Insolação (iluminação e calor);
• Fluxo de vento;
• Área total de aberturas (janelas, portas, varandas, etc.) num lado da construção;
• Ju Qi e Ming Tang;
• Intensidade no fluxo de pessoas e acessos;
• Uso dinâmico dos cômodos da casa (partes com mais movimento);



Vide imagem 2 e 3


Cabe aqui uma observação importante: a Face sempre leva em consideração a chamada “parede externa guia” com maior potencial de entrada dinâmica de Qi (levando-se em conta a dinâmica de todos os andares, se houver). Assim, não é possível se obter um padrão energético de um lugar baseando-se apenas numa vista bonita de uma janela a partir de um ponto especifico da edificação (um banheiro, quarto ou sala), pois é a “soma” dos aspectos energéticos potenciais de um dos lados da construção que é tomada como base.

Muitos também confundem uma paisagem externa abundante (Ming Tang - uma grande, benéfica e predominante concentração dinâmica de Qi) ou mesmo uma Boca d´Água (Shui Kou - pontos focais de acúmulo energético rápido, mas em menor escala) como definidores de uma Face, sem se ater às aberturas da construção de fato. Sem dúvida, ambos podem ajudar a definir a entrada principal de energia, mas somente se a parede externa tiver suficientes aberturas e as divisões internas dos cômodos forem estruturalmente direcionadas para esses pontos (permitindo assim, um bom fluxo de Qi vindo dessas direções).


Vide imagem 4

Prédio e casa - Complexidades em macro e microcosmo

Num estudo de uma casa, é comum se utilizar o conceito de macro e microcosmo, que se refere à “transferência” do padrão geral de comportamento energético da construção (potencial da Face, estímulo, etc) a uma escala menor, caso queira se estudar um ambiente interno (tal qual um quarto, etc). Nesse sentido, usa-se a metáfora da casa como um corpo, e os cômodos fazendo parte do funcionamento global dessa unidade.

E como se faz em caso de aptos num prédio? Seria utilizado o mesmo princípio acima? Novamente, a dialética entre as abordagens de Taiwan e Hong Kong entra em cena. Analisar Feng Shui em aptos, se por um lado é comum na atualidade, por outro pode significar um embate de interpretações ancestrais muito vorazes e “anatomicamente” díspares.

Obviamente, na época da produção de muito dos tratados, os exemplos se baseavam em construções basicamente horizontais (casas de poucos andares), não havendo a referência de prédios, o que acarretou numa adaptação das teorias aos edifícios verticais, independentemente da visão.

Nesse sentido, a linha de Taiwan costuma considerar cada unidade existente num prédio como tendo uma dinâmica similar a de um cômodo numa casa, ou seja, a Face Energética do apto / conjunto é o “rebatimento” da direção da entrada de energia do prédio (no caso, geralmente a porta de acesso principal / hall predial), não havendo relações com a porta específica do imóvel em questão. Sob essa ótica, todas as unidades, em todos os andares, teriam o mesmo padrão de energia, seguindo o padrão macro-microcosmo do edifício.

Vide imagem 5


Por outro lado, a visão mais dinâmica segue outras perspectivas. Uma possibilidade seria analisar as características do prédio como um todo (numa visão condominial); para isso, se encontraria a Face Global da construção (utilizando-se os parâmetros de potencial de entrada de Qi gerais - não considerando apenas a porta principal). Outra análise seria voltada apenas à unidade, sendo que cada uma poderia ter um potencial exclusivo de Face Energética, tendo em vista o lado das aberturas de cada apartamento e as vistas que poderiam ser otimizadas de acordo com o andar estudado. Essa visão (também compartilhada pelo autor) se baseia na premissa que cada apto possui uma dinâmica e vida energética própria, não sendo similar a um cômodo para uma casa.


Vide imagem 6

Assentamento de uma Construção

Se a Face Energética representa o lado mais “Yang” da construção, o potencial de maior entrada e uso dinâmico do Qi, por outro lado o Assentamento Energético provavelmente seria o inverso, o lado mais “Yin”, estável e onde se acumula a maior quantidade de energia do ambiente, certo? Bem, essa seria a aplicação da teoria ancestral, onde primeiro se escolhia uma montanha atrás da casa para “ancorar” o Qi, instaurando nesses setores a localização dos quartos, para somente depois disso encontrar, no lado oposto, uma boa direção para a abertura de janelas e portas para se definir a Face. Entretanto, que se encontra hoje é, em geral, muito diferente. Atualmente, em edificações já prontas, a única garantia é a constatação do lado mais Yang, assim determinando a Face Energética. Por conseguinte, o oposto disso (sempre 180º) é o chamado Assentamento, este último não sendo, necessariamente, o padrão mais Yin do local (apenas o lado contrário à Face – o que leva aos estudiosos modernos a múltiplas interpretações e contradições no que se diz respeito à reinterpretação dos clássicos e sua aplicação nos tempos modernos).

Assim, se o Feng Shui Tradicional é uma arte que exige muita sensibilidade e conhecimento, lidá-lo tecnicamente como ferramenta de autoconhecimento na atuação no mundo tão dinâmico e em mudanças constantes, exige sutilezas interpretativas e uma visão menos dogmática e absoluta (sobretudo dos tais clássicos). Será que conseguimos fazer isso em momentos tão radicais e polarizantes? Esperamos que sim...



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Autoria

Texto e imagens de Marcos Murakami - Diretor do Instituto Eternal Qi - Centro de Ensino e Pesquisa - Ministrante de cursos de Feng Shui - (11) 2959-2668 / 98148-4816 - falecom@institutoeq.com.br - Julho 2017

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