Corpo e Mente
Feng Shui e História - Parte 1

Feng Shui e História - Parte 1

 (Parte 1)


É importante esclarecer que Feng Shui não se limita apenas em colocar “penduricalhos”, como sinos de vento e flautas em determinados pontos da casa. Para se compreender o Kan Yu, é necessário conhecer alguns conceitos fundamentais da metafísica chinesa, tais quais as características da chamada energia vital (Qi), dos fluxos do Yin e Yang e do Wu Xing (5 Transformações), da linguagem dos trigramas e das suas interpretações arquetípicas na natureza, além dos diversos tipos de estudos cosmológicos, das tradições e ritos orientais. Sem dúvida, um grande e instigante caminho a ser percorrido.


Outra dúvida comum ao iniciante é a grande quantidade de linhas de atuação que compõe o Feng Shui. Palavras como Luo Pan, Ba Gua do Chapéu Preto, entre outras, confundem e muito os neurônios dos estudantes. O que se torna fundamental, portanto, é compreender que não existe somente um tipo de sistema ou escola de Feng Shui, mas inúmeras. Além disso, as técnicas ancestrais não vieram somente de um local. Na China, esse estudo perpetuou-se como uma tradição familiar ou discipular, sendo que cada uma possui um enfoque diferente.

Dessa maneira, antes de iniciar um estudo tão profundo e complexo, recomenda-se analisar em que contexto se formou o Feng Shui, como também a evolução das escolas dessa arte. Assim sendo, se procurará esclarecer, em termos históricos e até mitológicos, onde surgiram as técnicas aprendidas e aplicadas na contemporaneidade.


Dinastias Chinesas e a Evolução do Feng Shui


1. Período Neolítico (a partir de 5.000 a.C.)

Sociedade agrícola, com bases matriarcais. Nas vastas planícies, as comunidades tribais procuravam instaurar no cotidiano a mesma norma divina que pressentiam existir, ao observarem o iluminado céu de estrelas toda à noite. A partir da figura mítica que se apresenta ao grande sábio Fu Xi, surge a primeira constatação de um código celestial que refletia o dinamismo cósmico. Essa inscrição, localizada no dorso do chamado Qi Lin (Cavalo-Dragão), foi denominada de He Tu, ou Mapa do Rio.


Vide Imagem 1 - O mítico Fu Xi


Vide Imagem 2 - Qi Lin - (Cavalo-Dragão)


O sentido de padrão celestial foi instaurado ao se compreender o papel de centro do Universo, local onde tudo surgiu. A Estrela Polar tornou-se o pilar essencial, pois em volta desse eixo girava a haste de 7 Estrelas que formavam a Constelação da Grande Ursa Maior (Bei Dou). Constituía-se assim a Era de Ouro, em que a Figura dos 3 Reis-Xamãs Yao, Shu e Da Yu - representavam a compreensão das forças da natureza. Segundo a lenda, Yao tinha a capacidade de “voar” para as outras galáxias, enquanto que Shu tinha total acesso às esferas celestes. Este último transmite todo o conhecimento oculto ao filho Da Yu, que posteriormente recebeu o título de Detentor do Poder sobre as Águas. Conta-se que no casco da Tartaruga-Sagrada do Rio Luo, Da Yu enxergou um código que mostrava o fluxo da energia terrestre. A esse esquema, foi dado o nome de Luo Shu, ou Mapa do Mundo Manifestado.


Vide Imagem 3 - Bei Dou (Ursa Maior)



Vide Imagem 4 - Tartaruga e padrão do Luo Shu


Da Yu, além de introduzir o bronze na China, teria sido o fundador da primeira dinastia, denominada Xia (2200-1765 a.C.), quando conseguiu conter as inevitáveis enchentes de Huanghe, ou Rio Amarelo, salvando o povo, e ensinando às primeiras comunidades nômades o segredo da sazonalidade. Dividindo o território em nove províncias com atribuições específicas, foi dada origem aos estudos dos fluxos espaço-temporais dos Ventos (Feng) e das Águas (Shui). É nessa fase que surge o primeiro Livro das Mutações, denominado de Lian Shan.

De acordo com os escritos sagrados, Da Yu, além de Mestre Agrimensor e Mestre da Forja, era considerado um imortal que entendia a linguagem dos animais. É uma das primeiras referências à tentativa de paralelo entre o Comportamento dos Bichos e o Homem (outra citação sobre o tema remete aos tempos de Fu Xi).


2. Dinastia Shang (1756 – 1027?  a.C.)


Vide Imagem 5

Sociedade baseada na agricultura e na mão de obra escravista. Cultura luxuriosa e selvagem, onde rituais, sacrifícios e cultos em nome dos ancestrais e forças da natureza eram comuns. Inscrições arcaicas encontradas nos cascos de tartarugas e ossos revelam, além do desenvolvimento de um sistema de escrita, princípios oraculares, que posteriormente seriam evidenciados nos Escritos Sagrados Gui Shang, ou O Livro das Mutações de Shang, uma das bases do conhecido Yi Jing.

3. Dinastia Zhou (1028? – 221 a.C.)


Consagração do oráculo Zhou Yi – As Mutações dos Zhou, devido ao aprimoramento do Yi Jing por parte de rei Wen, que desenvolve os chamados Julgamentos, ou versos dos 64 Hexagramas. Seu filho (Duque de Zhou) é responsável pela explicação das Linhas, e Confúcio acrescenta sua visão social / moral nas Imagens e os Comentários (as denominadas Dez Asas). O Tratado sobre o Yi é somado à criação do Taoísmo e Confucionismo, das Teorias do Wu Xing (5 Ciclos) e do Yin e Yang no estudo do Feng Shui.

Essa dinastia é comumente separada em:

• Zhou Ocidental (até 771 a.C.): considerado o período dos reis sábios, caracterizou-se pela suposta paz interna. O conceito de mandato celeste, ou seja, o direito divino de comando por parte dos governantes foi reforçado, simbolizado pela queda do governo anterior / perda do comando pelos ditos deuses maiores. Nesse período, constatam-se os primeiros estudos sobre Feng Shui, a partir das técnicas Xiang Di, uma prática geomântica que visava encontrar terras férteis e melhores localizações para santuários.

• Zhou Oriental (até 221 a.C.): época de grandes inquietações, iniciadas com as invasões bárbaras que levaram ao assassinato do rei, e a mudança da capital para Luoyang (atual província de Henan) em 771 a.C. Ocorreu, nessa época, um aumento do poder central sobre os governantes locais, através de um sistema de impostos sobre a produção agrícola e o uso da terra. Em meio à fragmentação e decadência do reino; o período foi dividido historicamente, em Tempos de Primavera e Outono (770 – 476 a.C.) e nos Estados Litigantes (475 – 221 a.C.).

Em Zhou Oriental viveram os sábios Lao Ze e Gong Fu Ze (Confúcio). Surgiram então as bases que culminariam na divisão do conhecimento em Tradição Invisível – Compreensão dos Mistérios do Universo (Mi Djun) e Visível – Harmonia do Mundo Cotidiano (Shien Djun).

• Zhan Guo / Período dos Estados Litigantes (475 – 221 a.C.): foi encontrado um artefato que demonstra o uso dos símbolos do Feng Shui. Estavam desenhados na tampa de uma caixa de 430 anos a.C., que foi escavada em Leigudun, na província de Sui Zhou, Hubei. Os lados da caixa possuem um dragão e um tigre, (símbolos utilizados no Feng Shui e da Astrologia Chinesa), porém o mais significante é o círculo das 28 Mansões Lunares, que circundam, na tampa, a palavra dou, que representa a Constelação da Ursa Maior. Somado a esse fato, observaram-se referências concretas sobre o Zodíaco Chinês e manuscritos astrológicos que vinculavam as enchentes e secas na agricultura ao posicionamento das constelações.

Segundo algumas fontes, é nessa época que se manifesta o Nei Jing (400 a.C.), o primeiro compêndio de medicina chinesa que explica detalhadamente a teoria milenar do Wu Xing. Nessa época, um jogo denominado Liu Bo fornecia um mapa esquemático celestial, indicando o primeiro conceito de estrutura divina aplicado à sociedade. Esse tabuleiro veio dos conceitos do astrolábio Liuren (Shi), que provavelmente já existia nessa dinastia, embora só existam provas consistentes da sua existência nos tempos de Qin.

O conhecimento da bússola foi ampliado na dinastia Zhou pelo imperador Shing, neto de rei Wen. Ele associou o conhecimento da bússola ao do Yi Jing e constituiu um sistema de predição terrestre e celeste. Trata-se do legendário Luo-Jing, que não chegou até o ocidente. Luo significa “aquele que abarca todo conhecimento do céu e da terra” e Jing (Ching) significa “clássico”.

Consta-se no terceiro século a.C. um dicionário chinês referente a descrição da escolha de sítios de acordo com conceitos de harmonia - com a referência à simetria, equilíbrio, hierarquia das alturas e orientações favoráveis. Também nos livros Shujing (o Livro dos Documentos) e Shijing (o Livro das Canções) constavam a escolha de melhores locais para novas cidades.

Kui Ku Ze foi um dos grandes mestres da época e expoente da “sabedoria vertical e horizontal” (Teoria sobre a Diplomacia) e sábio da Escola do Yin e do Yang. Deixou três tratados: pode-se dizer que ele foi o predecessor espiritual dos Fang Shi (especialistas nas técnicas esotéricas), que surgiram cerca de cem anos depois, durante as Eras Qin, dos Han e dos Três Reinos. Segundo a lenda, ele morava num lugar chamado Vale dos Espíritos e foi mestre de alguns dos maiores estadistas dos reinos feudais da China daquela época.

Nessa etapa manifesta-se o Nei Jing (400 a.C.), o primeiro compêndio de Medicina Chinesa que explica detalhadamente a Teoria milenar do Wu Xing. Somado a esse fato, observaram-se referências concretas sobre o Zodíaco Chinês e de manuscritos astrológicos que ligavam as enchentes e secas na agricultura ao posicionamento das constelações, além da criação de um método geobiológico (Zhai Bu), que avaliava a qualidade do solo e águas subterrâneas.

Em termos arquitetônicos, cresceram as cidades-estados guerreiras, sendo comum a construção de muros nas aldeias. Os projetos imperiais seguiam regras geomânticas e ritualísticas, e o local exato do imperador era fixado e mudado conforme as correspondências astrológicas e as estações do ano. A evolução desse movimento circular ao redor de um edifício central descreve um dos conceitos mais importantes do futuro Feng Shui, o Ming Tang (Palácio Luminoso ou Palácio do Destino).


4. Dinastia Qin (221 – 207 a.C)


Dinastia vigorosa, porém muito curta. Em 221 a.C., ocorreu a unificação do território chinês, quando a fronteira oeste de Qin (o mais agressivo dos Estados Litigantes) subjugou o último dos estados rivais. Auto proclamando-se como um ser divino (Shi Huang Di), o novo rei impôs um governo altamente centralizado e burocrático, baseado na repressão e retaliação de conhecimentos que pudessem criticar o governo (queima dos escritos sagrados ancestrais e perseguição aos confucionistas). Os Qin caíram frente às revoltas sociais, que se tornaram insuportáveis após a morte do primeiro imperador, em 210 a.C.

Para impedir a invasão bárbara, nesse período foram iniciadas construções de muros fortificados ligando os vários Estados Litigantes, e que no futuro se denominaria A Grande Muralha.

Zhang Liang foi um dos mais famosos entre os primeiros Fang Shi. Nascido no fim da Era dos Estados Litigantes, passou pela fase dos Qin e fundou a dinastia Han. Aprendeu as ciências militares, a magia e as artes divinatórias. Seus contínuos sucessos militares eram atribuídos à capacidade de conhecer o momento certo para fazer a manobra militar. Era discípulo de Huang Shi Gong (ou Ch’ing-su Tzu), mestre do Pinheiro Vermelho, que foi um dos maiores sábios taoistas.

No Feng Shui, desenvolveu-se o Di Mai, ou o estudo das Veias do Dragão (caminhos energéticos terrestres). Esse conceito foi estudado pelos antigos geógrafos e se relacionava diretamente aos segredos dos picos e vales das cadeias de montanhas como caminhos do Qi.

Também se desenvolveu muito o ritual dos funerais e começou-se a selecionar os lugares mais auspiciosos para os ancestrais (que eram enterrados com suas cabeças apontando para o oeste e a tumba com face leste). Isso se devia ao fato provável da visão de que a dinastia Qin tendia a se expandir na direção leste, tendo o reino oriundo do oeste da China (assim, a cabeça em respeito ao lar de seus ancestrais).

Além disso, a partir das bases do tabuleiro Liu Bo, dois diagramas, chamados de Shi, (usados para fins divinatórios) foram identificados. Essa é a referência mais antiga do que viria a ser a Luo Pan.


Vide Imagem 6

Shi / Liuren da Dinastia Qin
(Frente e verso)   
Desenvolvimento da Shi



Nesse período, os princípios do Feng Shui começam a ganhar corpo. Publica-se o Kan-yu-jin-kui (O Tesouro Dourado do Kan Yu) que espalhou as sementes do Li Qi Pai (Escola do Potencial Não Manifestado / Escola da Bússola) e tem início a separação entre Xing Shi Pai (Escola do Pontecial Manifestado / Escola das Análises Formais) e o Li Qi Pai. A teoria começa a exercer grande importância, junto com a observação. Nascia, assim, os parâmetros de forma do Feng Shui, o que mudaria a maneira dos kanyu shia em entender e sentir o espaço e a paisagem.

Continua na próxima edição em junho 2018.

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Autoria

Texto colaboração de Marcos Murakami - Diretor do Instituto Eternal Qi - Centro de Ensino e Pesquisa - Ministrante de cursos de Feng Shui - (11) 2959-2668 / 98148-4816 - falecom@institutoeq.com.br - Maio 2018

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