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Feng Shui e História (Parte 2)

Feng Shui e História (Parte 2)

Continuação da edição anterior (maio de 2018)...



Dinastias Chinesas e a Evolução do Feng Shui

5. Dinastia Han (206 a.C. – 220 d.C)

Após um período curto de guerra civil, uma nova dinastia, denominada Han, emergiu ao poder. Mantiveram-se alguns princípios governamentais instaurados pelos Qin, mas ocorreu uma mudança significativa no sentido social: o confucionismo foi adotado como base de pensamento oficial do novo império. Nesse período, houve grandes expansões territoriais pelos militares, principalmente a oeste (região de Tarim Basin – atual Xinjiang-Uyghur) e Norte (parte do atual Vietnã e Coréia). Após 200 anos, o governo de Han foi brevemente interrompido pelo rebelde Wang Mang – Dinastia Hsin (9-24 d.C) - mas rapidamente restaurado por mais 200 anos (a chamada Han Oriental). Entretanto, o ciclo de prosperidade havia cessado. O crescimento incontrolado da população, colapso dos sistemas políticos regionais, e rivalidades políticas resultaram na queda do império.

Dois grandes inventos chineses, o papel e a porcelana, datam dessa época. No Feng Shui, a evolução relevante das técnicas ocorreu durante a dinastia Han Ocidental. Foi nessa época que as artes divinatórias ganharam destaque, os fang shi tornaram-se muito relevantes e o Feng Shui, uma profissão reconhecida.

A teoria do Yin e do Yang e dos 5 Elementos constituíam a base do pensamento metafísico, sendo que os trigramas, hexagramas e o tratado Yi Jing (I Ching) proporcionavam a estrutura necessária à prática mística. Teoria e prática eram amparadas, ainda, por um sofisticado sistema de referências, cujos elementos eram o calendário, a bússola e os registros terrestres e celestes. O mais famoso dentre os fang shi foi o mestre Qing Hu, um dos patronos do aspecto científico do Kan Yu e autor de alguns dos primeiros textos sobre os melhores locais de sepultamento.

O Kan Yu (ainda não se usava o termo Feng Shui) foi explicado pelo escritor da dinastia Han Oriental Xu Shen (autor do Shuowen Jiezi) como: “Kan é o Tao do Céu (referente aos corpos celestes) e Yu, o Tao da Terra (indicando os princípios dos potenciais da natureza)”.

No estudo da época, dizia-se que olhar para cima com o intuito de observar os corpos celestes (o movimento do Sol, Lua e estrelas) é uma parte complementar, mas reforçar o olhar para examinar a textura da terra (o terreno das montanhas, rios, água e terra) é a parte primordial. Esta é a razão pela qual tal estudo era também chamado de Di Li (princípios da terra ou textura da terra) nas suas primeiras gerações de livros sobre o assunto. O termo Kan Yu é mencionado no Huai-Nan Zu, livro que resume todos os conhecimentos taoístas que o estudioso Liu Na (Huai Zu) adquiriu dos fang shi.

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Shi Pan / Si Nan

Durante a dinastia Han houve o desenvolvimento da Shi, denominada Shi Pan ou Si Nan (composta de uma colher magnetizada que apontava para a Bei Dou - Ursa Maior e a Estrela Polar – e um prato quadrado com inscrições na base, utilizado supostamente para cunhos divinatórios). Na sua base encontram-se os 8 Trigramas, os anéis das harmonias universais da Terra (Di Pan – 24 Montanhas), do Céu (Tian Pan) e a Astrologia Lunar (28 Xius). No livro Han Fei Zi You Du Pian, diz-se que o rei usava a Luo Pan Si Nan para conhecer “o Leste e o Oeste”.

6. Os 3 Reinos e as 6 Dinastias (221 – 589 d.C.)

Período de grandes invasões no território chinês, principalmente pelos tibetanos, turcos e mongóis. Alguns desses povos estabeleceram-se no vale do Rio Amarelo, o que resultou numa fecunda fusão cultural. Nesse ínterim, o taoísmo (ou na realidade o Neotaoismo, uma religião panteísta nativa apenas baseada no primeiro, como alguns historiadores afirmam) e o Budismo, oriundo da Índia, difundiram-se como as grandes sabedorias da época. Nesse período viveu Guo Po (276-324), responsável por tornar o Kan Yu um ramo autônomo de conhecimento no contexto das artes taoistas. Reconhecido dentre os modernos praticantes do Feng Shui como o pai das artes geomânticas, conta-se que tenha sido um erudito, poeta e um sábio dos conhecimentos ocultos. Legou-nos tratados de “geomancia” sobre a seleção de locais de sepultamento – Livro dos Funerais ou Livro dos Mortos (Zhang Shu) e A avaliação da paisagem (Zhuan Jing). Esses dois clássicos gozavam de larga popularidade na época. Diz a lenda que a escola Xuan Kong (Vazio Misterioso) nasceu a partir desse mestre.

O termo Feng Shui é citado pela primeira vez. É assim dito: “Quando o Qi cavalga o vento, ele é dispersado (Feng); quando ele encontra a água, ele é retido (Shui)”. O “amálgama” Vento-Água é assim estabelecido. O clássico Qin Nang Jing – Os Nove Volumes do Livro dos Funerais do Saco Azul é escrito entre 420 e 589 d.C.

7. Dinastias Sui (589-617 d.C.) e Tang (618-907 d.C.)

O caos dos 3 Reinos terminou pela força exercida por Sui Wen Ti. Este general reunificou os reinos do Norte, conquistou a região Sul, centralizou o governo e reformou as taxas de impostos. Com a morte do rei, o filho Sui Yang Ti assumiu o comando, levando o império à ruína econômica, política e militar nas expedições contra a Coréia. Numa luta pelo poder que resultou na morte de Sui Yang, uma ordem nova surgiu, pelas mãos do general Li Yuan. O confucionismo e o budismo tornaram-se as bases do pensamento governamental.

A dinastia Tang é considerada como o auge da civilização chinesa, sendo até superior à Han. Estimulado pelo contato com a Índia e Oriente Médio, a império viu florescer a criatividade em muitos campos, como a literatura e a arte. A impressão em papel em grande escala foi inventada, permitindo que os escritos fossem mais acessíveis. Concursos públicos baseados nas regras sociais confucionistas se desenvolveram, e os oficiais do governo atingiram um grande status junto à comunidade, pois serviam de ligação entre o povo e a corte real. Em 751 d.C., em meio à instabilidade economia, governamental e política da China, os árabes invadiram o império, iniciando a decadência que culminaria com o fim da dinastia em 907, pelos guerreiros do norte. O que se viu nos próximos 50 anos foi uma grande fragmentação, denominada como 5 Períodos (907-960 d.C.) e Dinastia Liao (916-1125 d.C.). Esta última situava-se ao Norte, e se manteve isolada até o domínio dos Song do Sul, em 1125.

As técnicas do Kan Yu foram diferenciadas em Yin Zhai (estudos de túmulos) e Yang Zhai (para edificações). Além disso, iniciou-se a estruturação do Feng Shui em duas vertentes: San He (Três Harmonias) e San Yuan (Três Ciclos), separação que se tornaria explícita na dinastia Song.

Nos tempos de Tang, viveu o mestre Yang Jun Song (834-900) autor do Qing Nang Ao-Yu. Nesse livro mencionava-se que os segredos do Tempo-Espaço se encontram no “Ai-Xing-Shu” (método da distribuição das estrelas num diagrama) e que a relação Ci-Xong (energias Yin e Yang) e do Wu Xing (5 ciclos do Qi) se expressavam no Xuan Kong. Entretanto, Yang nunca revelou como isso era feito.

Durante o período Tang, surgiram diversas escolas de pensamento dentro do próprio Kan Yu. Algumas, como a de Yang Jun Song, atribuíam às formas da paisagem (as Veias do Dragão, por exemplo) um papel central no estudo da qualidade de um local / região. Perito nas artes divinatórias, Yang gostava especialmente do Kan Yu e envidou consideráveis esforços para pesquisar e desenvolver métodos de uso da bússola, avaliação da paisagem e escolha de locais de sepultamento, formalizando assim, o Xing Shi Pai (Escola do Potencial Manifestado / Estudo das Formas).

Criação do Livro da Teoria dos Cinco Sobrenomes para selecionar bons locais para casas e sepulturas. Aumento no uso de talismãs e inscrições sagradas para proteção e magia. Estima-se que as inscrições referentes A Canção dos Grandes Ciclos Anuais (Da You Nian Ge) tenham sido veiculadas nessa época, uma tabela que posteriormente seria utilizada por todas as escolas Ba Zhai (8 Palácios).

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Da You Nian Ge

8. Dinastia Song (960-1279 d.C.)

O líder militar Chao Kuang Yin proclamou a nova dinastia em 960. A característica marcante do novo governo foi manter as terras nas mãos somente do imperador, em vez de dividi-las em setores onde governadores poderiam se tornar muito poderosos. Houve reunificação da maioria das propriedades chinesas, e foi restabelecido o confucionismo como pensamento vigente. Historicamente, essa dinastia é separada em Song do Norte (960-1127) e após a fuga forçada da corte real, devido às invasões nortistas, em Song do Sul (1127-1279).

No período Song foi notável o desenvolvimento marítimo. A partir do intenso movimento comercial e industrial das cidades, surgiu uma nova classe social – os mercantilistas - que renovaram os conceitos de prestígio e posição social. Culturalmente, os Song retomaram a visão de homem ideal dos Tang, mas agregaram intelectualidade, filosofia e consciência política baseada nos clássicos confucionistas. Enquanto isso, o budismo declinava gradativamente, sendo considerado pouco eficiente na solução dos problemas políticos e práticos do dia-a-dia. Em 1206, a união de várias tribos mongóis, sob liderança de Gengis Khan, ameaçava o império. Beijing foi capturada em 1279, e Kublai Khan, seu neto, pôs fim definitivo à dinastia Song.

O desenvolvimento do Feng Shui foi muito grande nessa época. Nesse período já se tinham notícia do:

• Sistema do Grupos Leste-Oeste;
• Método das Estrelas Voadoras;
• Desenvolvimento de 4 tipos de agulha de bússola (de unha, molhada, seca e pendurada);

O Método da Flor de Ameixeira se desenvolve a partir do mestre matemático Shao Yong, assim como os arranjos quadrados e circulares para os 64 Hexagramas, uma das bases do Xuan Kong Da Gua (Vazio Misterioso do Grande Hexagrama).

A ascensão do Feng Shui como método sistemático nessa dinastia reflete-se no grande número de obras publicadas sobre o assunto, com cerca de cinquenta livros reunidos no Sung Shi (História dos Sung).

O surgimento Zi Wei Dou Shu (Astrologia Polar), atribuído ao sábio taoista Zhen Duan data dessa fase. Ele escreveu muitos tratados sobre o entendimento dos ciclos dinâmicos no universo, sendo que as artes divinatórias não seriam o que são hoje sem suas contribuições à compreensão do Yi Jing.

A obra Yuan Hai Zi Ping, compilado pelo estudioso Shu Dasheng (também chamado de Zi Ping) torna-se a base primordial do sistema Ba Zi (8 Desígnios ou posteriormente chamado de Quatro Pilares do Destino).

Com a sabedoria dos muitos mestres da época, as pesquisas de predição passaram a se relacionar muito de perto com as teorias das mudanças (Yi Xue). A numerologia e da simbologia do Ba Gua tornou-se uma “ciência mística”, que incluía também toda uma matemática nos estudos das probabilidades. Na época dos Song do Sul,o Feng Shui era praticado igualmente por taoistas, budistas e neoconfucionistas.

Na região Norte da China, aprofunda-se a tradição San-He (3 Harmonias), baseada na “Força do Lugar” - estudos das montanhas, vales e rios. No Sul, a tradição San-Yuan (3 Ciclos) cria uma outra metodologia, estruturada na “Força ou Dinâmica Tempo”, com foco no Luo Shu, comumente denominado Quadrado Mágico.

Alguns clássicos importantes sobre o Ba Zhai são supostamente datados dessa época, tais como O Clássico do Imperador Amarelo sobre os 8 Palácios, O Clássico dos 8 Palácios de acordo com o Rei Sulista Huai-Jiangshu e Os 8 Palácios da Pedra Amarela do Homem Velho.

É um dos momentos de maior expansão do Feng Shui como um profundo e dinâmico estudo sobre túmulos, construções, ambientes e paisagem, estabelecendo as âncoras e premissas para o que viria a ser, na contemporaneidade, essa arte do bem-viver.

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Autoria

Texto colaboração de Marcos Murakami - Diretor do Instituto Eternal Qi - Centro de Ensino e Pesquisa - Ministrante de cursos de Feng Shui - (11) 2959-2668 / 98148-4816 - falecom@institutoeq.com.br - Junho 2018

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