Corpo e Mente
A violência institucionalizada

A violência institucionalizada

 

15 de maio de 2006; 18 horas. Os alunos estão telefonando em grande número para avisar que não podem se locomover até à escola, pois não existe ônibus, o metrô está lotado e está todo mundo indo para casa, apavorado, pois uma onda de terror invade a nossa cidade. Os bandidos decretaram o “toque de recolher” e a população, perdida, obedece cegamente, sem questionar. O congestionamento é gigantesco, passa dos 200 quilômetros. Às 18h30min resolvemos suspender as aulas.


19h00min – Estou em frente à TV e não posso acreditar no que vejo: milhões de pessoas estão se deslocando “apavoradas” rumo às suas casas. O número de policiais assassinados passa dos 25; o de bandidos beira o mesmo número.


20h00min – A rua onde moro e as adjacentes estão completamente desertas. Ninguém é visto nas ruas, as poucas pessoas e carros, dirigem-se rapidamente às suas residências.


20h30min - Estou com fome! Meu filho Eticar, que reside em Salvador estava de visita a São Paulo e havíamos combinado que jantaríamos juntos em algum restaurante da capital.


20h40min – ligo para um restaurante conhecido. – “Infelizmente não podemos atendê-lo, pois estamos fechando”.


20h45min – ligo para outro restaurante conhecido. – “Prof. Carlos Rosa, sentimos muito, mas já estamos fechados”.


20h50min – ligo para um restaurante desconhecido. “Senhor, infelizmente, nesta noite não poderemos atendê-lo, pois já estamos fechando”.


20h55min – Vamos comer uma pizza! Vou até a porta da geladeira e pego dois telefones de pizzarias. Ligo para a primeira. Ninguém responde. Ligo para a segunda e uma voz me comunica que naquela noite seria impossível me atenderem, pois os funcionários já tinham ido embora. Eu estava com fome e agora com sede e muito, muito zangado!


Minutos depois, assistindo novamente ao noticiário da televisão, o zangado deu lugar à tristeza. Comecei a ficar muito triste; triste comigo mesmo.


Comecei a me perguntar: - Quem eu era? Por que aquilo estava acontecendo? Estava com fome, com dinheiro no bolso e não existia na quarta maior cidade do mundo um local para jantar. Um arrepio atravessou a minha espinha: eu estava prisioneiro na minha própria casa, e o que era pior, sem dever nada a ninguém, sem ter sido julgado e muito menos condenado.


Fiquei triste! Uma dor de cabeça se apossou de mim, a febre tomou conta do meu corpo como reclamando que algo não ia bem no meu organismo. Realmente, algo não ia bem; ou melhor, algo ainda não anda muito bem. Preciso de respostas.
Devo procurar essas respostas nas autoridades políticas, policiais ou onde? Um arrepio passou pela minha espinha (deve ser a febre): será que eles sabem as respostas?


Estou escrevendo este artigo no dia 22 de maio, uma semana depois da “segunda-feira negra” e ainda não me recuperei totalmente. Continuo procurando respostas.


Vi e ouvi os mais diversos especialistas, hipócritas e imbecis em matéria de segurança pública deste país. Mesas redondas, entrevistas, reuniões de emergência no Congresso Nacional, Assembléia Estadual e Câmara Municipal. Tentei acompanhar todos – fiquei perdido. Eram informações demais para minha cabeça febril.
De um “expert”, ouvi que o problema era da superlotação dos presídios (???).
De outro, que era um problema do aumento da criminalidade. Só contaram pra ele.
Outro disse que o governo Estadual era o culpado, pois a segurança nas prisões era de sua alçada.


Um outro jogou para o governo Federal a culpa, pois na “sua” opinião, as armas dos bandidos entravam contrabandeadas pelas nossas fronteiras mal policiadas.


Ouve até alguns que disseram que os culpados éramos nós, isso mesmo, nós, o povo, as famílias, que não sabemos educar os nossos filhos e, assim, eles, coitados, mal educados pelos familiares, somente extravasaram seus instintos mal orientados.
Bem, o saldo foi triste: mais de 150 mortes, entre bandidos, policiais e civis.


Continuo triste. Não estou mais com fome. Meu filho já se foi para a sua Salvador, o meu neto Rafaél que nasceu no dia 11 de maio em Macaé, Estado do Rio de Janeiro também não está com fome, a escola voltou a funcionar normalmente, mas as perguntas não querem calar.


Quem somos nós?
De quem somos nós?
Para onde nós vamos?
O que fazem os nossos governantes com os nossos impostos?
A polícia tem capacidade para nos dar segurança?
O fato poderia ter sido evitado?
Poderá acontecer uma segunda vez? Em que proporções?


Por tanto, através deste artigo venho repudiar tudo o que aconteceu entre os dias 12 e 15 de maio, principalmente quanto ao direito de ir e vir de cada cidadão deste Estado e desta Cidade.


Pagamos os nossos impostos para que as autoridades competentes nos dêem segurança, nos dêem, na pior das hipóteses, alguma explicação plausível do por que as coisas aconteceram e não para ouvirmos baboseiras, mentiras e hipocrisias, como se fôssemos um bando de alienados, uma cambada de seres “humanos” sem qualquer classificação que só servimos para votar nessa turba de incompetentes e corruptos.


Chega!

Estou com fome. Vou jantar.

 

Professor Carlos Rosa: Contato: (11) 5584-7378

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